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16 Bits da Depressão

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Um papo retrô-cabeça: por que o jovem não conhece o lendário Terry Bogard?

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06/09/2019 17h52

Durante a Nintendo Direct realizada na quarta-feira (4) foi anunciada a chegada do nosso querido Terry Bogard ao universo de Super Smash Bros Ultimate, levando ao delírio os fãs da Nintendo e da SNK.
De 1991 a 1999, Fatal Fury, a série onde Terry é protagonista, recebeu seis jogos canônicos e mais alguns "spin-offs", consagrando-se como um dos principais jogos de luta da SNK ao lado de Art of Fighting e Samurai Shodown.

Certamente, a fama do nosso lutador de jaqueta vermelha foi muito além com sua inclusão na série de jogos de The King of Fighters. De 1994 a 2016, Terry gabaritou a presença em todos jogos da série, e tudo indica que ele não ficará de fora do 15º jogo anunciado recentemente.

Mas mesmo com todas essas notáveis aparições em alguns dos principais jogos de lutas da quarta geração de consoles até os atuais, muitos jovens demonstraram desconhecer de quem se trata. Chegaram até a confundir Terry e compará-lo com um treinador Pokémon.

A confusão virou notícia em diversos lugares, gerando algumas calorosas discussões com opiniões variadas. Alguns atribuíram a confusão à "nutelagem" dos jovens, outros apontam isso como algo natural no entretenimento, e uma parcela dos comentaristas culpa a própria SNK por falhar em entregar um jogo atrativo com a figura do Terry Bogard.

Em meio a tantos desacordos, destaco as ponderações que fiz juntamente com o grandioso Celso Affini, do canal Defenestrando Jogos.


Acho até OK alguém por aí não conhecer o Terry, mas não conhecer o Celso já é demais.

O cara é, simplesmente, um dos mais prestigiados criadores de conteúdo retro gamer, tendo iniciado seu trabalho de enaltecimento de jogos clássicos lá em 2011.

Sentindo que o tópico é bem mais profundo e aproveitando nossa capacidade de discordar um do outro sem causar qualquer inimizade, resolvemos estender o papo por aqui na esperança de agregar algumas observações relevantes sobre o tema.

Vamos lá?

16 Bits – Em seu comentário, você aborda o fator temporal e também o desinteresse das novas gerações. Além dessas causas, você acha que as produtoras de jogos como a SNK também possuem uma parcela de culpa?

Celso – Sim e não, mas deixa eu explicar para não ficar confuso. As empresas tentam disponibilizar o que o público procura e acho que sabemos que hoje vivemos de HYPE, daquela sensação de estar vivendo as últimas novidades, então as empresas procuram satisfazer o público. E acredito que ele é o maior culpado em vários momentos.

Você menciona a SNK, e se voltarmos para 1994, sabemos que ali começou uma das séries de jogos do estilo "Fighting Game" mais famosas do mundo: "The King of Fighters" foi um sucesso, tanto que se tornou o carro-chefe da empresa. Seguindo por anos como o destaque da SNK, juntamente com Metal Slug, que também saiu na época e foi um sucesso, mesmo sendo produzido pela NAZCA.

Voltando à questão: a SNK se focou com afinco nos jogos que o público dela queria, porém, as novas tecnologias tornaram possíveis muito mais jogos diferentes, com gráficos poligonais que hoje são a tendência. A SNK não conseguiu acompanhar, e foi especializando-se apenas em um estilo de jogo que se tornou, também, meio que obsoleto.

O público foi procurar outros meios de se divertir com jogos e já sabemos da história de perdas da SNK, que foi comprada pela Playmore, e que tem tentado e conseguido bons resultados reavaliando seus trabalhos com os jogos.

Então parte da culpa é da empresa, sim, que alimenta os jogadores, dá a eles exatamente o que eles querem. Muitas vezes elas se fecham para novidades, para solidificar o público; e ele, como parte também do problema, pega aquilo usufrui, e depois de um tempo simplesmente deixa de lado. É o "hype" né? As novidades acabam sendo mais legais e mais importantes.

Isso gera essa relação de amor e ódio entre as empresas e o público, e por isso o "tempo" acaba sendo o maior inimigo dos jogos. Talvez quando a natureza humana mudar, o tempo seja visto de uma forma diferente e afete esse entretenimento diferentemente de hoje.

16 Bits – Compreendo e até concordo que o "problema" seja justamente uma questão de demanda. Por outro lado, me pergunto: será que, de fato, existe esse "problema"? Pois quando falamos de "culpa", estamos indiretamente assumindo o absurdo que é o jovem não reconhecer um personagem icônico de nossa época.

Será que nossas colocações são apenas nosso "espírito de tiozão" falando mais alto? Afinal de contas, Pokémon tem sido uma febre mundial há mais de duas décadas, sendo televisionado na TV aberta por diversos anos. Vale lembrar que a franquia Pokémon consegue ser mais lucrativa que Harry Potter, Star Wars e até mesmo Mario Bros. Sendo assim, será que o jovem está certo ao ver um mestre Pokémon quando olha o Terry?

Celso – Não é bem uma questão de "problema". Acho que é natural isso, estar querendo viver as novidades em uma certa parte de nossas vidas. Sinceramente, nem achei tão desproporcional nossa reflexão em relação a questão de sermos tiozões, achei até normal isso, tanto que culpei o "tempo"… hahaha.

Pokémon realmente é um exemplo de sucesso, mas quantos dos garotos de hoje jogaram os primeiros Pokémons? Quantos conseguiriam jogar Pokémon Red e Blue no hardware original? É difícil saber, talvez a resposta seja melhor ou pior do que imaginemos.

Mas essas reações da nova geração são, a meu ver, "corretas", pois é um referencial para eles e eles puxaram para aquilo que eles conheciam, como a gente fazia na época também. Em Pit Fighter, o lutador Ty era chamado de Van Damme, qualquer lutador chinês de calça preta e sem camisa era o Bruce Lee etc. Então tínhamos nosso referencial nos filmes e os jogos da época bebiam dessa fonte.

Já hoje, tudo mudou, então achei super tranquilo o que ocorreu. Infelizmente o tempo passa, certas coisas não têm mais a mesma importância e nem são mais o norte para toda uma geração. Com meus 43 anos hoje, fico muito feliz de viver o que vivi e ver como as coisas mudam e como não podemos colocar tudo em pedestais de nostalgia, pois no final tudo muda, a vida se transforma e já estamos vendo que nos jogos isso está acontecendo.

16 Bits – Bacana demais, Celso. Obrigado por este breve papo prazeroso. Tenho certeza que irá agregar bastante a quem resolver refletir sobre tudo isso.

Celso – E já deixo meus agradecimentos a você, 16 Bits, pois esse assunto dá muito pano pra manga e eu adoro essas reflexões. Meu muito obrigado, e precisando é só chamar.

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